Vaticano admite excomunhão de bispos ordenados por grupo tradicionalista



Após a FSSPX ter desafiado diretamente o Papa Leão XIV ao consagrar hoje quatro bispos sem consentimento, Parolin manifestou à imprensa a “profunda tristeza” da Igreja com os atos, que “rompem a unidade” católica.

As ordenações, adiantou, constituem “um ato cismático” que exige “sanções muito específicas”, principalmente a “excomunhão” dos bispos da comunidade.

“Não sei quando ou como será anunciada esta excomunhão, mas espero que, apesar do que aconteceu hoje, o diálogo possa ser retomado e se possa encontrar uma solução real”, disse Parolin.

Segundo a lei da Igreja, o simples ato de consagrar um bispo sem mandato papal acarreta a pena mais severa na Igreja Católica: excomunhão automática para os novos bispos e para o bispo que administra o rito.

Isto equivale também a um ato cismático, ou seja, a uma rutura intencional da unidade da Igreja Católica.

O Papa norte-americano já havia alertado que consagrar bispos sem a sua aprovação equivale a um “pecado de extrema gravidade” que, na verdade, prejudicará os fiéis.

Apesar do apelo, o grupo avançou com a cerimónia, no seu histórico bastião de Ecône, na Suíça, na presença de milhares de fiéis católicos que preferem a missa tridentina às liturgias modernas.

Os quatro novos bispos são os padres franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, o padre norte-americano Michael Goldade e o padre suíço Pascal Schreiber.

A missa tridentina ou missa em latim é o rito tradicional da Igreja Católica, dita em latim e celebrada com o padre virado para o altar, em vez de encarar os fiéis.

A cerimónia foi transmitida em direto no canal de YouTube da fraternidade, com tradução simultânea em várias línguas, num evento altamente organizado que sublinhou o alcance internacional do grupo e o seu apelo aos católicos conservadores e tradicionalistas, que rejeitam o mundo moderno e secular.

No início da missa, um padre leu, em voz alta, uma declaração a justificar as consagrações como uma defesa necessária da fé e a criticar a forma como a Igreja Católica atual se desviou da tradição.

 “Por isso, diante de Deus, consideramos um dever sagrado para com a Santa Igreja e para com as almas proceder à consagração de bispos que sejam inteiramente fiéis à sua santa tradição e ao seu magistério constante”, disse o padre.

“Consideramos que qualquer punição e censura contra este passo não terá validade”, acrescentou.

   A FSSPX, que conta com aproximadamente 600.000 seguidores em todo o mundo, desvaloriza a ameaça de um cisma declarado ou de excomunhão.

 “Não temos medo. Dói-nos imenso, mas acreditamos que o bem que procuramos é maior do que a dor que nos será infligida”, disse o responsável da FSSPX para os media, Marc-André Mabillard.

A cerimónia decorreu 38 anos depois de o Vaticano ter declarado as últimas nomeações de bispos da FSSPX um “ato cismático” que acarretava a excomunhão automática para os bispos.

O arcebispo francês Marcel Lefebvre fundou a FSSPX em oposição às reformas modernizadoras do Concílio do Vaticano II, na década de 1960, que permitiram que a missa passasse a ser celebrada na língua vernácula em vez do latim, entre outras mudanças.

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