
O juiz Santiago Pedraz autorizou os investigadores da Unidade Central Operativa (UCO) da Guarda Civil espanhola a copiar e analisar o conteúdo do telemóvel de Juan Manuel Serrano, que é também ex-presidente da empresa pública de Correios, tal como solicitado por esses investigadores, uma medida que conta também com o apoio do Ministério Público Anticorrupção.
O “caso Leire” é uma investigação judicial a uma antiga militante do PSOE, Leire Diez, com suspeitas de ter havido dentro do partido uma operação que tentaria interferir ou desprestigiar as investigações policiais e do Ministério Público que envolvem familiares de Sánchez e ex-dirigentes socialistas.
Segundo o sumário judicial do caso, seria “uma organização estruturada”, em torno de Leire Diez e coordenada pelo ex-dirigente do PSOE Santos Cerdán, que pretendia “desestabilizar de maneira sistemática” as investigações, incluindo com campanhas mediáticas e de desinformação.
Quanto à decisão de hoje, o magistrado do Tribunal Nacional dá este passo, apoiado pelo Ministério Público, após um relatório da UCO ter apontado para a participação de Serrano, tanto na vertente do caso relativa à “obtenção de benefícios no âmbito empresarial da SEPI [Empresa Estatal de Investimentos Industriais]” como numa suposta organização que se dedicava, alegadamente, a boicotar processos judiciais.
No seu despacho, o juiz explica que, até agora, Serrano aparecia com uma “responsabilidade difusa” nos factos investigados e que, na sequência do relatório da Guarda Civil, surgem indícios relacionados tanto com práticas ilegais na contratação pública como com manobras relativas a processos judiciais.
Assim, no âmbito do processo centrado nos concursos públicos, o juiz aponta para práticas semelhantes nos Correios às que estão a ser investigadas noutras empresas públicas em que a SEPI detém participação, como a Mercasa ou a Enusa, que tiveram início “com a contratação irregular de Leire Díez” como diretora-geral da Filatelia, sob a supervisão de Serrano.
Posteriormente, Díez levou a cabo dois processos de contratação “em desvio da regulamentação pública”, em benefício próprio ou do ex-presidente da SEPI, Vicente Fernández, e, segundo o juiz, “tudo indicaria que se contava com a aquiescência” de Serrano.
Agora, procura-se apurar se este se limitou “a consentir essa operação ilícita ou se a sua responsabilidade se estendeu a impulsioná-la e a dirigi-la”.
A UCO apontou para contratos celebrados pelos Correios com o escritório de advogados SDEP & Carrillo, que, segundo a investigação, já teria beneficiado da intervenção do grupo Hirurok no que diz respeito à ENUSA, e indicou que o ex-presidente da SEPI, Vicente Fernández, teria recebido, por estas adjudicações, pelo menos 213.995,20 euros entre os anos de 2022 e 2024.
O juiz pretende também apurar o grau de envolvimento de Serrano nas supostas manobras para boicotar processos judiciais.
Pedraz destaca a presença de Serrano na reunião realizada a 26 de abril de 2024, coincidindo com os dias de reflexão que Sánchez tomou após a imputação da sua esposa, os relatórios sobre o material do ex-comissário José Manuel Villarejo ou as 9.355 mensagens que trocou com Leire Díez ao longo de quatro anos.
Para Pedraz, “é determinante” que Serrano tenha sido a primeira pessoa a quem Leire Díez ligou a 25 de abril de 2024, “pedindo-lhe que, com muita urgência, entrasse em contacto com ela”, anunciando-lhe que isso estava relacionado com “a decisão do chefe de ontem”, em referência ao anúncio de Sánchez de que iria à data cancelar a sua agenda para ponderar a “continuação no Governo”.
Pedro Sánchez tem dito que o Governo e o PSOE são limpos e que “a corruptela é de uns poucos” que “se aproveitaram do peso que tinham” no executivo e no partido “para ganhar dinheiro”.
“Nunca conheci nem teria tolerado nenhuma destas práticas”, disse o primeiro-ministro, no parlamento, em 24 de junho, reconhecendo que a “corrente de notícias judiciais” causam “legítima preocupação e confusão”, mas não há “corrupção generalizada”.





