
“É extremamente penoso olhar para aquilo que tem sido a política europeia em relação a Gaza, em particular. E é penoso pelo seguinte: face a um conflito de uma zona próxima, um conflito profundo de uma violência atroz, a Europa não tem conseguido ter voz”, criticou João Gomes Cravinho, em entrevista à agência Lusa, em Bruges, na Bélgica.
Nesta entrevista a propósito do novo cargo como reitor do Colégio da Europa, que assumiu há cerca de dois meses, o antigo chefe da diplomacia portuguesa observou que a falta de posição comum na UE não se deve à ausência de convergência entre “grande maioria” de países, que poderiam trabalhar juntos, mas da oposição de “um muito pequeno número” de Estados-membros a medidas contra Israel, apontando a República Checa, a Alemanha e a Hungria.
Segundo o responsável, a situação deixa a União exposta a acusações de incoerência: “Qualquer conversa sobre valores da UE, moral, Direito internacional, é imediatamente confrontada com uma só palavra, que é Gaza”.
“A credibilidade da UE tem sido profundamente abalada por isto”, acrescentou, afirmando existir uma “contradição essencial” entre a defesa desses princípios e a manutenção das relações com Israel.
Questionado sobre eventuais medidas contra Israel, Gomes Cravinho apontou para a política comercial da UE e considerou que, se a Comissão Europeia considera “inaceitável” o que se passa em Gaza, deveria assegurar que existem consequências.
Como alguns Estados-membros têm bloqueado uma resposta comum, o antigo ministro disse que as medidas unilaterais, como as adotadas por Portugal, podem ser justificáveis, embora “fragilizem” a própria UE como um todo.
Sobre a posição portuguesa, considerou que o Governo tem seguido “o caminho correto”, embora Portugal pudesse ter reconhecido mais cedo o Estado da Palestina.
Gomes Cravinho defendeu, ainda, que a solução de dois Estados continua a ser a única saída para o conflito.
A guerra em Gaza provocou uma das mais graves crises humanitárias dos últimos anos, causada pela ofensiva israelita e pelo apoio norte-americano, com milhares de mortos e feridos e uma população confrontada com deslocações em massa, destruição de infraestruturas e escassez de alimentos, água e medicamentos.
Na entrevista à Lusa, o ex-ministro falou também da Guiné-Bissau, onde apontou como principais problemas um Estado “quase inexistente”, “absolutamente penetrado pelo narcotráfico”, e a influência deste fenómeno nas Forças Armadas.
Sobre a atuação de Portugal, considerou que o Governo “não pode pactuar” com o que classificou como uma “absoluta fraude”, referindo-se à interrupção do processo eleitoral e à tentativa de criar uma nova legitimidade.
Já sobre Moçambique, considerou correta a postura portuguesa e defendeu a continuação dos esforços para promover o diálogo e uma maior abertura política, destacando os esforços do Presidente Daniel Chapo nesse sentido.
A Guiné-Bissau e Moçambique têm atravessado nos últimos anos períodos de instabilidade política, com Portugal e a UE a defenderem o reforço das instituições democráticas e do Estado de direito.
Sobre o Sahel, região onde foi representante especial da UE, Gomes Cravinho rejeitou que a União tenha “perdido” importância, mas defendeu uma mudança na relação com os países africanos.
“Temos de trabalhar de forma completamente diferente no âmbito do diálogo”, concluiu.
João Gomes Cravinho é reitor do Colégio da Europa desde julho. Doutorado em Ciência Política, foi ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa dos governos de António Costa. Foi também embaixador da UE na Índia e no Brasil.



