Ministro palestiniano demite-se após fazer ritual juntamente com criança

O ministro dos Assuntos Religiosos palestiniano apresentou hoje a demissão, após a divulgação de um vídeo em que aparece a realizar um ritual polémico a uma criança.

Segundo relatou a agência espanhola EFE, o vídeo mostra Mohamed Nayam a mergulhar um rosário islâmico (‘misbaha’) num copo de água para dar de beber a uma criança, após lhe recitar versículos do Corão.

Num comunicado, o Centro de Comunicação Governamental palestiniano anunciou que Mohamed Nayam tinha apresentado a carta de demissão ao primeiro-ministro, que a aceitou, “reconhecendo os esforços do ministro durante o período anterior” e desejando-lhe “saúde e sucesso”Fontes da Presidência da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) confirmaram à agência EFE que a demissão se deve à repercussão do vídeo que começou a circular na quarta-feira e que desencadeou uma onda de críticas e escárnio nas redes sociais, incluindo comentários de utilizadores que classificaram a prática como “bruxaria”.

Nas imagens, o ministro realiza uma ‘ruqya’, uma recitação de versículos do Corão à qual são atribuídos efeitos curativos ou protetores. Em seguida, mergulha a sua ‘misbaha’ num copo de água e pede à criança que a beba, corrigindo-a para que segure o copo com a mão direita, conforme prescreve a tradição islâmica.

A reza “põe em perigo a saúde da criança e, além disso, reflete uma prática amplamente condenada pelos palestinianos, considerada superstição e curandeirismo”, afirmou à EFE Ammar Dwaik, diretor-geral da Comissão Independente dos Direitos Humanos (ICHR), um organismo público autónomo que desempenha funções de provedor de Justiça na Palestina.

“Creio que foi a sociedade palestiniana que o obrigou a demitir-se”, acrescentou.

No entanto, Dwaik admitiu que, na quarta-feira, contactou o primeiro-ministro palestiniano, Mohammad Mustafa, para lhe pedir a demissão do ministro e solicitar uma investigação para apurar se o rosário tinha sido sujeito a algum controlo de higiene.

Auni Bazbaz, diretor dos Assuntos Internacionais do Waqf Islâmico de Jerusalém, instituição que administra a Esplanada das Mesquitas e é independente da ANP, lamentou, em declarações à EFE, que “ainda existam muitos mitos em que algumas pessoas continuam a acreditar”.

Segundo Nesya Rubinstein-Shemer, especialista em Islão do Departamento de Estudos do Médio Oriente da Universidade Bar-Ilan, em Israel, a ideia de procurar bênçãos através de objetos e da água “tem fundamento na tradição dos ‘hadiths’, ditos e atos atribuídos ao profeta, que constituem atualmente a segunda fonte de jurisprudência da religião islâmica”.

“No entanto, estes relatos referem-se a objetos que pertenceram ao próprio Maomé, e não a pertences pessoais de outras figuras religiosas”, precisou a académica, acrescentando que os estudiosos do Corão continuam a divergir quanto à legitimidade de alargar esta prática a outros objetos.

“Não podemos saber quais eram as suas intenções, mas o ato em si levanta questões teológicas e jurídicas importantes, sobretudo quando é praticado por um alto responsável pelos assuntos religiosos da ANP”, acrescentou.

A especialista chamou também a atenção para a questão, “muito mais prática”, da higiene.

“Os rosários são objetos pessoais que as pessoas manuseiam ao longo do dia, transportam consigo e pousam em diferentes superfícies. Mergulhá-los em água destinada a consumo pode introduzir bactérias e outros contaminantes, mesmo que o ato tenha sido praticado com boas intenções”, explicou.

Veja as imagens na galeria acima.

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