Guardia Civil confirmou 15 violações de residentes em Ceuta? É falso



Alegação: “Raparigas e mulheres de Ceuta estão a ser violadas diante dos nossos olhos, e NADA está a ser feito”

No sábado, 15 de agosto, o jornal espanhol El Mundo anunciou que “a Guarda Civil confirma 15 violações em Ceuta desde a entrada em massa [de migrantes] e uma detenção por crimes relacionados com terrorismo”: https://archive.ph/uTmRJ.

O artigo refere que aquela informação foi “noticiada pela Onda Cero”, uma rádio espanhola, “e confirmada pelo EL MUNDO” junto da Guardia Civil, que “identificou 15 violações em vários locais de Ceuta desde a entrada em massa.”

Pouco depois, a notícia foi reproduzida pelo jornal português Correio da Manhã (CM), que também titulou que “15 crianças e mulheres [foram] violadas em Ceuta em apenas duas semanas após entrada massiva de migrantes”: https://archive.ph/PbW3y.

Ambos os artigos são omissos na caracterização das vítimas, mas rapidamente as redes sociais encheram-se de mensagens inflamadas contra o governo espanhol e alegando que os migrantes foram violar mulheres espanholas.

“Raparigas e mulheres ceutenses estão a ser violadas diante dos nossos olhos, e NADA está a ser feito”, denunciava uma de muitas contas espanholas no X, antigo Twitter (https://archive.ph/bnaSV), cujas críticas apontavam quase sempre para a esquerda e o primeiro-ministro.

“Conhecem algum país onde tenham violado a soberania nacional, estejam a violar as suas compatriotas e o primeiro-ministro esteja escondido e entrincheirado, de férias?”, lê-se noutra conta de um político local do Partido Popular: https://archive.ph/j7Unm.

O caso foi comentado por várias figuras públicas nacionais e internacionais, como a norte-americana Valentina Gomez, conhecida ativista de extrema-direita, que afirmou que “as meninas e as mulheres [de Ceuta] estão a pagar o preço, porque o Governo não faz nada pelos seus cidadãos”: https://archive.ph/B4VL4.

Por cá o tema também foi amplificado pelo Chega: “Acham mesmo que é coincidência? Esta gente não respeita as nossas mulheres nem as nossas crianças! Têm de regressar urgentemente a Marrocos!”, lê-se nas contas oficiais em várias redes sociais, junto a uma captura de ecrã da notícia do CM: https://archive.ph/Y6MqC e https://archive.ph/sw5e5.

A analista Helena Ferro Gouveia também partilhou a notícia do El Mundo: “15 violações em Ceuta perpetradas por migrantes (quem diria que homens, jovens, e de culturas sem respeito pelas mulheres iriam respeitar as nossas). Achar isto inaceitável é ser de extrema-direita não é?”, questionou: https://archive.ph/9DpMn.

Factos: A Guardia Civil nega ter confirmado 15 violações, o número de agressões sexuais difere consoante a entidade e as vítimas são raparigas e mulheres migrantes

Quem estava a acompanhar a situação em Ceuta, como a Lusa Verifica, percebeu de imediato que a narrativa xenófoba da violação de raparigas e mulheres espanholas não correspondia aos factos conhecidos.

É verdade que circulavam vários registos de agressões sexuais e violações em Ceuta, mas os meios locais e até órgãos de comunicação social conservadores como o El Español e o OkDiario deixavam claro à data que as vítimas eram raparigas e mulheres migrantes e não cidadãs espanholas residentes em Ceuta (https://archive.ph/JigJL, https://archive.ph/KXnqW, https://archive.ph/UVM77 e https://archive.ph/E3EZt) e que num dos casos o suspeito era um cidadão espanhol: https://archive.ph/7XZha.

A Lusa Verifica tentou localizar a alegada informação avançada pela rádio Onda Cero, que terá atribuído a informação sobre as 15 violações à Guardia Civil, mas até ao momento apenas identificou um artigo publicado no dia seguinte, onde esse número já é atribuído a uma responsável do Sindicato Unificado de Policía (SUP), que terá dito que “já se fala de 15 violações”: https://archive.ph/j5ng4.

Esse número terá partido de uma denúncia de outro sindicato de polícias, o JUPOL, que na véspera do artigo do El Mundo já tinha divulgado “15 denúncias por agressão sexual”, mas de migrantes vulneráveis, sobretudo as que ainda estão fora do sistema de acolhimento temporário de migrantes e requerentes de asilo: https://archive.ph/QlMdW e https://archive.ph/EoK72.

Entretanto, na segunda-feira, o El Mundo publicou uma nova versão sobre as alegadas violações em Ceuta, baixando das iniciais “15 violações” para “10 agressões sexuais entre migrantes”, metade delas violações, sem assumir que se tratava de uma correção à notícia de sábado: https://archive.ph/zdIau.

“As agressões sexuais ocorridas desde a entrada em massa de 30 de julho em Ceuta ascendem, até ontem [domingo], a 10, sendo cinco delas violações – agressões sexuais com penetração -, de acordo com os dados recolhidos pelo EL MUNDO junto de fontes policiais e judiciais. Todas as vítimas conhecidas são migrantes e, entre elas, encontram-se menores de idade”, lê-se.

Nesta versão, ao contrário do que escreveu inicialmente, o El Mundo explica que “a Guarda Civil demarca-se de quaisquer informações sobre casos de agressão ou abuso sexual, uma vez que tal não é da sua competência”.

O mesmo jornal esclarece ainda que “até [domingo], as fontes consultadas pelo EL MUNDO não tinham conhecimento de qualquer queixa de violação de uma mulher, adolescente ou menina de Ceuta atribuída a pessoas que chegaram durante as entradas de 30 e 31 de julho. Um dado que contrasta com as várias informações e mensagens nas redes sociais que, nos últimos dias, aumentavam o número de supostas violações, tendo como vítimas mulheres da cidade autónoma.”

O El Mundo acrescenta também que as autoridades desmentem a detenção de qualquer suspeito de terrorismo, mas admitem a expulsão de “duas pessoas que tinham em vigor uma proibição de entrada em Espanha por motivos relacionados com o ‘jihadismo’, mais concretamente processos de radicalização.”

No mesmo dia, em entrevista à RTVE, a ministra da saúde de Espanha reiterou uma informação que já tinha referido no domingo, afirmando que as autoridades de saúde locais apenas tinham conhecimento de cinco casos de agressões sexuais: https://archive.ph/v0FjG.

Contraditório

A Lusa Verifica também pediu esclarecimentos à Guardia Civil, Polícia Nacional, Ministério do Interior espanhol, sindicato JUPOL, El Mundo, Onda Cero, Correio da Manhã, entre outros visados, mas apenas obteve duas respostas.

Ainda no domingo, a Guardia Civil assegurou que a informação sobre as 15 violações “não provém da Guardia Civil”, uma vez que “todos os dados oficiais são fornecidos pelo Ministério do Interior”, entidade que não respondeu.

Questionado sobre se o Chega tinha conhecimento de agressões sexuais ou violações a mulheres ou crianças espanholas residentes em Ceuta, o gabinete de comunicação do partido limitou-se a partilhar a ligação para o artigo do CM, não respondendo a mais questões.

Por seu lado, Helena Ferro Gouveia disse à Lusa que não sabe se as vítimas são espanholas ou migrantes, limitou-se a comentar números divulgados pela Guardia Civil. “Eu confiei no El Mundo, mas também já li que poderão ser migrantes. E de uma forma empírica sei como as mulheres e miúdas são tratadas. Vi disto aos montes em campos de refugiados. Mas as vítimas são todas iguais e tenho dúvidas que não possam vir a existir vítimas espanholas.”

Já nesta terça-feira, o Newtral, um projeto de verificação de factos espanhol, avançou com uma compilação de respostas de algumas das entidades contactadas para esclarecer este tema.

De acordo com essas respostas, o número atual de denúncias de agressões sexuais em Ceuta desde o início da crise migratória varia entre as 15 referidas por sindicatos da polícia, 13 segundo a Procuradoria de Ceuta, cinco segundo o Departamento de Saúde de Ceuta, e três casos já julgados de acordo com o Tribunal Superior de Justiça da Andaluzia, Ceuta e Melilla: https://archive.ph/KjWip.

Nas 13 denúncias formais registadas pela Procuradoria de Ceuta, quase todas arquivadas devido à dificuldade de identificar os agressores, “a maioria dos autores desses crimes sexuais eram estrangeiros sem residência legal na Espanha, com exceção de dois cidadãos espanhóis” e as vítimas “eram três menores e as restantes adultas, quase todas estrangeiras sem residência legal em Ceuta.”

Há também meios espanhóis e portugueses que referem 19 ou mesmo 20 “violações”, incluindo de uma cidadã local: https://archive.ph/13dd1 e https://archive.ph/mbwpi.

Avaliação Lusa Verifica: Falso, mas…

É falso que a Guardia Civil espanhola tenha confirmado a existência de 15 casos de violações de raparigas e mulheres residentes em Ceuta, como está a ser divulgado nas redes sociais com base em notícias pouco rigorosas, ou que tenha sido detido um migrante com antecedentes de terrorismo.

Há de facto registo de vários casos de agressões sexuais, mas as vítimas conhecidas são também elas migrantes e os números variam consoante a entidade: alguns media já somam “20 violações”, os sindicatos falam em 15, mas o Ministério Público de Ceuta só tem 13 de denúncias e o El Mundo refere agora apenas dez casos de agressões sexuais, cinco delas violações.

Terão também sido expulsos dois migrantes que tinham em vigor uma proibição de entrada em Espanha por motivos relacionados com o ‘jihadismo’, mas sem relação com atos terroristas.

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