Imprensa dos EUA classifica como “perigosas” alegações de Trump



O influente The New York Times (NYT) publicou um artigo intitulado “Uma obsessão de Trump que carrega um preço para a democracia”, considerando que, ao reabrir o debate sobre a sua derrota nas eleições presidenciais de 2020, o Presidente procura agora formas de lançar dúvidas sobre o resultado das intercalares (também conhecidas como ‘midterms’) agendadas para novembro deste ano.

“O discurso de Trump em horário nobre, proferido no Salão Leste da Casa Branca, foi um espetáculo espantoso, apresentando um Presidente determinado a persuadir o país de que as suas eleições não são confiáveis, pelo menos não aquelas em que ele ou os seus aliados falham”, escreveu Peter Baker, o principal correspondente do NYT na Casa Branca.

No artigo, o jornal defendeu que Trump não está só “obcecado” em revisitar a eleição de 2020, na qual o democrata Joe Biden foi eleito Presidente, mas também em encontrar maneiras de lançar dúvidas sobre a eleição de 2026.  

Na noite de quinta-feira, num discurso à nação, Donald Trump voltou a pôr em causa a integridade do sistema eleitoral dos Estados Unidos, acusando a China de interferir nas eleições de 2020, sem apresentar provas de manipulação, a poucos meses das intercalares.

Trump apelou ao Senado (câmara alta do Congresso) para aprovar a reforma eleitoral denominada “Save America” (“Salvar a América”), antes das eleições intercalares de 03 de novembro, nas quais estará em causa a maioria republicana no Capitólio (sede do Congresso).

O chefe de Estado afirmou que os Estados Unidos têm um sistema eleitoral “catastrófico” e disse que nenhum país pode ser “grande” sem eleições “livres, justas e honestas”.

Durante a intervenção, Trump anunciou a divulgação de documentos anteriormente classificados relativos às eleições de 2018 e 2020, alegando que revelam “a maior violação de dados eleitorais da história” e que permitiram à China obter ilicitamente os registos de 220 milhões de eleitores norte-americanos.

O Presidente acusou ainda Pequim de ter procurado impedir a sua reeleição em 2020 e sustentou que a comunidade de informações norte-americana lhe ocultou esses dados durante o primeiro mandato, entre 2017 e 2021.

No entanto, os documentos divulgados pela Casa Branca não apresentam provas de manipulação dos votos, nem de alteração do resultado das presidenciais de 2020.

O NYT afirmou que os documentos divulgados por Trump não corroboram as suas declarações mais agressivas sobre a segurança das eleições: “Na verdade, alguns dos documentos chegam à conclusão oposta”, referiu o jornal.

Num artigo de opinião publicado também no NYT, Jim Himes, o principal democrata no Comité de Informações da Câmara dos Representantes (câmara baixa), indicou que, após as eleições de 2020, as agências federais de serviços de informações não encontraram “nenhum indício de que qualquer agente estrangeiro tenha tentado interferir nas eleições de 2020, alterando qualquer aspeto técnico do processo de votação”.

Frisou ainda que se tratou de uma análise rigorosa feita por especialistas não partidários.

“Às vésperas das eleições de meio de mandato, Trump está a preparar terreno para minar a confiança do povo americano nas nossas eleições. O Presidente encheu a sua administração com negacionistas eleitorais”, denunciou Himes.

O diário norte-americano USA Today escreveu que Donald Trump, “desesperado por implementar uma federalização inconstitucional das eleições norte-americanas antes das intercalares”, recorreu aos “bodes expiatórios favoritos das teorias da conspiração”.

 Após o discurso de quinta-feira, o diretor executivo do Centro de Inovação e Pesquisa Eleitoral, David Becker, afirmou que, 18 meses após Trump voltar ao poder, “tudo o que conseguiu foram mais teorias da conspiração requentadas e desmascaradas, muitas das quais já conhecidas e que sabíamos que não afetaram as nossas eleições”.

Também o jornal britânico The Guardian se juntou às críticas, considerando que o discurso do chefe de Estado teve como objetivo explícito desestabilizar o sistema eleitoral dos Estados Unidos.

“O Presidente dos Estados Unidos usou o seu cargo e os serviços de informações para tentar minar a confiança nas eleições antes das intercalares”, escreveu o jornal.

Algumas das principais redes da televisão norte-americana optaram por não transmitir em direto o discurso de Donald Trump, como foi o caso da ABC, NBC ou a CNN internacional.

A decisão das emissoras gerou uma repreensão do Presidente, que afirmou que os canais em questão estavam envolvidos numa “conspiração” e que as suas licenças deveriam ser revogadas.

error: