
A Amnistia Internacional (AI) acusou hoje, num relatório, as autoridades quenianas de recorrerem cada vez mais a táticas autoritárias para reprimir protestos contra o aumento do custo de vida e pediu que as pessoas mais pobres sejam amparadas.
“As autoridades quenianas têm recorrido cada vez mais a táticas autoritárias – incluindo detenções e prisões arbitrárias, raptos, perseguição mal-intencionada contra manifestantes, vigilância e opressão da imprensa – para reprimir os protestos contra o agravamento das dificuldades económicas e as políticas fiscais agressivas do Governo”, declarou hoje a AI num relatório.
No documento “Os direitos humanos sob cerco: uma análise das práticas autoritárias numa Era de pressão económica, no contexto dos protestos liderados pela juventude no Quénia”, a Organização Não-Governamental (ONG) salienta que “entre 2023 e 2025, o aumento dos custos de alimentação e transporte, as taxas e subidas de impostos, a elevada dívida pública, a corrupção, a crescente pobreza e desigualdade, bem como promessas eleitorais não cumpridas, geraram indignação pública e protestos”.
“As conclusões deste relatório são perturbadoras e traçam um retrato cruel da resposta repressiva do Governo queniano a queixas reais que afetam o dia a dia das pessoas comuns”, referiu o diretor-executivo da AI Quénia, George Morara, citado em comunicado.
Morara considerou ainda que “as tentativas do Estado para desviar as atenções do seu incumprimento das obrigações em matéria de direitos humanos não funcionaram”.
Além disso, a seu ver, as autoridades têm de responder às queixas económicas que originaram os protestos, pôr fim à escalada da repressão da dissidência e garantir a responsabilização pelas violações dos direitos humanos cometidas.
O Quénia vive uma onda de manifestações, desencadeadas em junho de 2024 por uma lei orçamental controversa, criticada principalmente pelos jovens.
Essas manifestações foram duramente reprimidas pela polícia e causaram cerca de 100 mortes.
De acordo com a nota de imprensa, os investigadores da AI entrevistaram 102 pessoas – incluindo manifestantes, advogados, jornalistas, entre outros – entre abril e julho de 2026 e analisou relatórios do Hansard (diário da assembleia), orçamentos e políticas fiscais do período 2023-2025.
Alguns manifestantes entrevistados relataram ter sido mantidos em cativeiro durante dias. Muitos afirmaram ter sido espancados, torturados ou submetidos a outros maus-tratos, bem como interrogados sem representação legal sobre os seus alegados financiadores, sendo-lhes também negado o contacto com a família, relatou.
Os jornalistas também foram assediados, agredidos fisicamente, detidos de forma arbitrária e alguns receberam ordens para apagar gravações das suas câmaras ou viram o seu equipamento ser confiscado, recordou.
“Seis jornalistas disseram à Amnistia Internacional ter sido vítimas de uso ilegítimo da força por parte da polícia, incluindo agressões físicas, disparos de gás lacrimogéneo, canhões de água ou tiros”, acrescentou.
A Amnistia Internacional apela ao Governo que garanta reparações integrais a todas as vítimas de violações dos direitos humanos e às suas famílias.
Por outro lado, pede que se aumente “o financiamento da proteção social para amparar as populações mais pobres” e que se assegure “que seja realizada uma avaliação do impacto nos direitos humanos antes de qualquer reforma ou política económica”.
Após o período de investigação, a ONG diz ter transmitido as conclusões às agências governamentais competentes, “no entanto, até à data de publicação deste relatório, não foi recebida qualquer resposta”, referiu.



