
À Lusa, o diretor de política da empresa YouGov explicou que uma das principais fragilidades do primeiro-ministro do Reino Unido cessante, o também trabalhista Keir Starmer, foi a incapacidade de comunicar eficazmente com o público e expor de forma convincente medidas difíceis, como aumentos de impostos, ou de apresentar uma visão mobilizadora para o país.
Em contraste, Andy Burnham, que assumiu na sexta-feira a liderança do Partido Trabalhista, destaca-se pela capacidade de empatia e de ligação com os eleitores.
“É ótimo a expressar emoções, a sentir as dificuldades das pessoas e a estabelecer ligação com o público”, disse Wells à Lusa, acrescentando que, embora não tenha o carisma de figuras como Tony Blair (primeiro-ministro 1997-2007), representa uma melhoria clara face aos líderes trabalhistas recentes.
As sondagens da YouGov indicam que os britânicos têm reservas quanto à perceção de confiança, suspeita que afeta os políticos em geral, mas Burnham continua a ser visto como competente, decisivo e, acima de tudo, simpático pela maioria dos britânicos, qualidade que Wells entende que pode fazer a diferença num líder.
Para Wells, uma das vantagens de Burnham será a capacidade de “projetar um plano” do futuro e justificar as decisões políticas junto dos eleitores, incluindo eventuais sacrifícios.
“Quando essa mensagem vem de alguém de quem as pessoas gostam e em quem confiam, é mais facilmente aceite”, referiu.
Ainda assim, o responsável da YouGov alerta que essa vantagem não resolve os problemas estruturais do país, como a baixa produtividade ou o fraco crescimento económico.
“Comunicar melhor ajuda, mas não faz crescer a economia”, admitiu, sublinhando que Burnham terá de tomar decisões difíceis para apresentar resultados concretos no final do mandato, em 2029.
Wells considera improvável que três anos sejam suficientes para resolver os principais problemas do Reino Unido, mas admite que poderá ser tempo bastante para convencer o eleitorado de que o país está no rumo certo.
Os dados da YouGov indicam que Burnham é atualmente visto como mais capaz do que Starmer por uma parte significativa dos eleitores: 23% consideram que fará melhor, contra 8% que antecipam um desempenho inferior.
No entanto, a opinião pública permanece dividida quanto às diferenças entre ambos, com níveis reduzidos de expectativa de mudança em várias áreas políticas, como a economia, imigração e sistema de proteção social.
A forte associação de Burnham ao norte de Inglaterra pode ser vista como uma fragilidade, com mais eleitores a recearem que governe sobretudo em função dessa região do que no interesse nacional.
Até meados de maio, a taxa de aprovação do antigo presidente da Câmara de Manchester (norte) era positiva, mas nas últimas semanas caiu, sobretudo junto de militantes de partidos à direita.
“Ele era basicamente o único político trabalhista do país com uma avaliação favorável. Agora está em território negativo”, explicou Wells, que antecipa uma possível melhoria nas intenções de voto do Partido Trabalhista a curto prazo, impulsionada pela liderança de Burnham.
Quanto à hipótese de eleições antecipadas, o analista relativiza a sua relevância, notando que o apoio a essa ideia tende a variar consoante os partidos estejam no poder ou na oposição.
“Burnham terá um caminho politicamente mais fácil do que Starmer em termos de comunicação e empatia, mas continuará confrontado com os mesmos desafios estruturais que exigem decisões difíceis”, concluiu.
Keir Starmer deverá apresentar na segunda-feira a demissão formal de primeiro-ministro ao Rei Carlos III, que convocará Burnham para formar Governo enquanto líder do partido com maioria parlamentar.





